SUBVERSÃO E RECRIAÇÃO EM LEVANTADO DO CHÃO E EM YAKA

 

Vima Lia de Rossi Martin – USP

 

Ah! Quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever, a verdadeira história da humanidade.

Álvaro de Campos, Pecado original

 

Esta comunicação tem por objetivo apontar a convergência da perspectiva crítica apresentada por Saramago em seu romance Levantado do chão, que resgata o processo de desalienação e de luta dos trabalhadores rurais alentejanos contra a estrutura latifundiária apoiada pelo Estado e pela Igreja, e por Pepetela em seu romance Yaka, que promove a recuperação do passado de resistência do povo angolano contra o invasor colonial.

Queremos apontar, aqui, dentre as inúmeras aproximações possíveis, tão somente a utilização de uma estratégia bastante similar pelos dois escritores – a criação de uma espécie de “capítulo inicial” que cumpre a função de orientar o leitor sobre a maneira pela qual a história oficial de seus países, Portugal e Angola, será ficcionalizada nas narrativas em questão.

No romance Levantado do Chão, antes de se iniciar a ação narrativa propriamente dita, há uma espécie de abertura ou introdução que vai antecipar importantes aspectos para o entendimento da história ficcional.

Trata-se de um primeiro capítulo que, como os outros que se seguirão, não é diferenciado nem por número, nem por título. Nessas primeiras páginas, o narrador insiste na abundância da paisagem que pode ser vista por todo Portugal – O que mais há na terra é paisagem (LC,p.11) – e assinala a sua imemorável história nas mãos dos poderosos – (...) terra talhada entre os donos do cutelo e consoante o tamanho e o ferro ou gume do cutelo (...) terra dividida do maior para o grande, ou mais de gosto ajuntada do grande para o maior (...) (LC, p.13).

Por fim, mesmo diante do fato incontestável de que a posse de cada pedaço de chão tenha sido sempre privilégio das classes dominantes, o narrador não se intimida e menciona a existência de outro grupo social, que jamais alcançou importância alguma na história escrita pelos donos do poder. São os lavradores que, por constituírem a força de trabalho que fecunda as terras do latifúndio, serão capazes de desestabilizar o contexto social aparentemente imutável de que fazem parte:

 

E esta outra gente quem é, solta e miúda, que veio com a terra, embora não registada na escritura, almas mortas ou ainda vivas? A sabedoria de Deus, amados filhos, é infinita: aí está a terra e quem a há-de trabalhar, crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-me, diz o latifúndio. Mas tudo isso pode ser contado doutra maneira. (LC, p.14)

 

Essas palavras,primeiramente, colocam em xeque a força dos trabalhadores rurais. Depois de séculos vivendo de forma submissa, terão suas consciências vivas ou mortas? Em seguida, parodiam as palavras divinas no Gênesis e anunciam a subversão que marcará a narrativa que se segue. Subversão do ponto de vista do narrador, que não vai corroborar com o discurso divino/oficial e contará a história doutra maneira, valorizando os sujeitos da subversão da ordem que estrutura o latifúndio:essa outra gente que, em oposição aos latifúndiários, efetivamente trabalha e multiplica a terra.

Desse modo, a pergunta elaborada inicialmente recebe uma resposta. As almas estão vivas e serão agentes de uma história de subversão que estamos prestes a conhecer. Antecipam-se, assim, os traços fundamentais do discurso narrativo: têm-se a matéria a ser narrada – a história dos trabalhadores rurais no latifúndio – e a pespectiva da narrativa – o ponto de vista crítico de um narrador profundamente identificado com o drama vivido por esses mesmos trabalhadores.

Também no início de Yaka está presente um procedimento semelhante ao encontrado em Levantado do chão, uma vez que Pepetela faz uma espécie de introdução, a que chama de Nota Prévia, antes de começar a primeira parte da narrativa. Essa nota, assinada por ele (O Autor) traz, inicialmente, algumas informações sobre o povo yaka. Por terem percorrido grande parte do território angolano e combatido bravamente conquistadores estrangeiros durante o século XVI, os yakas são considerados guerreiros antecipadores da nacionalidade angolana:

        

Criadores de chefias, assimiladores de culturas, formadores de exércitos com jovens de outras populações que iam integrando na sua caminhada, parecem apenas uma idéia errante, cazumbi[1] antecipado da nacionalidade. (Y, p.6)

 

A nota traz também algumas explicações sobre a estátua quedá nome ao romance:

 

... a estátua é pura ficção. Sendo a estatuária yaka riquíssima, ela poderia ter existido. Mas não. Por acaso. Daí a necessidade de a criar, como mito recriado. Até porque só os mitos têm realidade. E como nos mitos, os mitos criam a si próprios, falando. (Y, p.6)

                  

Como acontece no texto de Saramago, as palavras introdutórias de Yaka também nos dão a chave para a compreensão de todo o texto. Para o seu autor, a criação literária da estátua Yaka significa a recuperação do passado de resistência dos povos nativos contra os invasores, procurando afirmar, no presente, a identidade nacional angolana. A escultura, produzida por um grupo étnico notabilizado pela luta para preservação de seu território, pode ser vista como símbolo da unidade do país, um bem cultural que, resgatado pela literatura, insere-se na esfera do mito e, por isso, tem o poder quase sagrado de materializar a história ao nível sutil e profundo da sensibilidade, da emoção, daquilo que toca a consciência social de cada um antes de se transformar em idéias e aí imprimir a sua marca (ABRANCHES, p.48).

Desse modo, a obra de Pepetela toma para si a tarefa de reconstruir parte da história de luta, muitas vezes anônima e cotidiana, da população de seu país. Esse procedimento contribui para derrubar a idéia de que os negros nativos foram submissos e passivos diante da invasão colonial e reforça a certeza de que o homem angolano foi e deve ser sempre sujeito consciente da própria história. Sob a perspectiva do autor, é somente com a reflexão sobre os erros cometidos no passado e sob a inspiração dos acertos que levaram à vitória contra o jugo colonial, que a construção de um futuro seguro e promissor para Angola pode ser enfrentada com segurança.

A criação de uma mesma estratégia que visa a explicitar a problematização da história de dois países que, do ponto de vista dos escritores em questão, é marcada pela carência e pela alienação confirma a aposta de ambos na construção de uma realidade em que os conflitos sociais gerados por práticas exploradoras sejam superados e em que se efetive a construção de sociedades democráticas e igualitárias.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

PEPETELA. Yaka. São Paulo, Ática, 1984.

SARAMAGO, José. Levantado do chão. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993.

ABRANCHES, Henrique. Identidade e patrimônio cultural. UEA, 1989.



[1] cazumbi - espírito